02.09.10
Invictus (2009, Clint Eastwood)
Seguindo a saga do Oscar, fui domingo assistir “Invictus”, das performances de Morgan Freeman e Matt Damon, concorrendo a Melhor Ator e Melhor Ator Coadjuvante, respectivamente.
Invictus é uma fábula que usa uma história real para ser contada. A história da Copa do Mundo de Rugby de 1995, na África do Sul, é utilizada para mostrar a verdadeira história que interessa, que é a história da reconstrução da África do Sul pós-Apartheid. A “história principal” do filme acaba sendo, no fim das contas, o pano de fundo das histórias secundárias: além da história da África do Sul fazendo as pazes com ela mesma temos a história de superação de Fraçois Pienaar e a inegavelmente grande história de Nelson Mandela.
Pienaar, um bôer, é o capitão da seleção sul-africana de rugby. Uma seleção que vinha tendo péssimos resultados e que era um dos símbolos do Apartheid, regime segregacionista que vigeu na África do Sul até 1990. A boa interpretação de Damon faz com que simpatizemos com Pienaar que tem duas missões ingratas: fazer com que seu time acredite nele mesmo e mudar a imagem de um time e de um esporte considerados racistas. Na África do Sul era comum a maior parte da população torcer contra os “Springboks” (seleção de rugby) em função do rugby ser um esporte tradicionalmente disputado pela elite de origem inglesa ou bôer. A primeira cena do filme, com um campo de rugby e um campo de futebol cortados por uma estrada e o contraste entre eles mostra bem o tamanho do desafio de Pienaar.
Já a história de Mandela é fascinante. Tão fascinante que ele é um personagem perigoso. É muito complicado fazer um filme em que ele apareça e que não acaba se tornando um filme sobre Mandela. Ainda mais quando o personagem é magistralmente interpretado por Morgan Freeman, ator de confiança de Eastwood e que faz um belo trabalho. A maneira que Clint encontrou de diminuir um pouco o personagem Mandela (que continua, ainda assim, muito grande) foi limar do filme a história de Mandela anterior aos anos 90. A militância e a prisão do líder do CNA são citados, mas não mais que isso, durante o filme. O desafio que se coloca a frente do personagem é o de um presidente recém-eleito que tem o difícil trabalho de reconstruir a África do Sul pós-apartheid.
A Copa do Mundo de Rugby, oportunidade de redenção de Pienaar, foi habilmente utilizada por Mandela como uma chance de unir o país e provar que não haveria, por parte do novo governo negro, o revanchismo temido pelas minorias brancas. A Copa do Mundo é utilizada por Eastwood como a grande fábula: um grupo desacreditado mas movido por um grande ideal enfrenta todas as dificuldades e adversidades, luta contra adversários mais fortes e persevera. Quando a África do Sul chega a final contra a temível Nova Zelândia alguns inclusive ensaiam aquele discurso de “não importa o que aconteça, já provamos o que queríamos”. Para o espectador fica também a impressão de que uma vitória não seria necessária. Mas se ela viesse…
“Invictus” não é o melhor filme de Eastwood, certamente. Mas é um filme muito acima da média. O diretor embola um pouco no início, onde pode ficar um pouco confuso para quem não conhece a sucessão dos fatos desde a soltura de Mandela da prisão, em 1990, até a sua eleição para a presidência, em 1994. Sendo eu um professor de história também não posso deixar de citar a ausência de um personagem importante em toda essa história: Frederik de Klerk, o presidente sul-africano responsável pela soltura de Mandela, pela revogação do Apartheid e pelas eleições livres de 1994. De Klerk é citado uma ou duas vezes no filme, e nem todas de forma elogiosa.
A nova África do Sul de Mandela é mostrada inteligentemente por Eastwood de diferentes formas: os medos da elite branca aparecem principalmente nos discursos do pai de Pienaar e na sua família, típica família de classe média bôer. Eunice, a empregada negra da família que apenas escuta as barbaridades e olha para baixo, serve para mostrar as tensões sociais na África do Sul. Impagável, nesse sentido, é a convivência forçada entre os antigos seguranças negros e os novos seguranças brancos de Mandela. Depois de um início extremamente tenso as relações entre eles vão se aliviando, numa metáfora do que Mandela queria que acontecesse em toda a África do Sul.
Invictus não entrou na lista dos indicados a melhor filme, nem Eastwood foi indicado a melhor diretor. Como são 10 os filmes indicados, não seria injusto Invictus estar lá. E Eastwood, se não foi brilhante, foi competentíssimo. A maneira como ele mistura a trama de Pienaar, a trama de Mandela e a trama do rugby, fazendo com que componham uma só história, faz com que o filme valha a pena. Vale a pena destacar também a fotografia do filme, que fez imagens lindas especialmente da Cidade do Cabo.
02.02.10
Indicados ao Oscar 2010
Saíram as indicações! Você encontra todas elas aqui: http://tiny.cc/indicados2010
Algumas coisas, modestamente, foram antecipadas por esse blog: as indicações de George Clooney para melhor ator, por Amor Sem Escalas, a indicação tanto de Vera Farmiga quanto de Anne Kendrick pelo mesmo filme e a indicação (esse já ganhou, é só entregar) de Cristoph Waltz por Bastardos Inglórios.
Novidade: são DEZ os filmes concorrendo ao grande prêmio da noite. Saem como favoritos Avatar, Guerra ao Terror e Bastardos Inglórios, que lideraram indicações. Azarão seria Up – Altas Aventuras, a segunda animação de todos os tempos a concorrer ao prêmio de melhor filme (a primeira foi A Bela e a Fera, em 1992. Sim, Wall-E, Procurando Nemo e Toy Story são bem melhores, mas a academia tem dessas coisas…).
Ainda não vi todos os filmes, até porque tem muita coisa aí que não estreou ainda ou que está estreando nessa semana, por isso vou arriscar e indicar DOIS candidatos em cada categoria:
Melhor Filme:
Avatar ou Guerra ao Terror. A Academia ainda não está pronta para Tarantino.
Melhor Ator
George Clooney (Amor Sem Escalas) ou Morgan Freeman (Invictus)
Melhor Ator Coadjuvante:
Christoph Waltz. Aqui não tem plano B, é ele e só.
Melhor Atriz:
Categoria complicada. Além de ter Meryl Streep (num papel apenas bom em Julie e Julia) tem Helen Mirren, que é excelente atriz. Ainda há a primeira indicação de Sandra Bullock.
Fico entre Meryl Streep, que seria a aposta segura, e Gabourey Sidibe, que está sendo elogiadíssima em Preciosa
Melhor Atriz Coadjuvante:
Uma das duas de Amor Sem Escalas: Vera Farmiga ou Anne Kendrick.
Melhor Animação:
Up – Altas Aventuras deve ganhar, afinal também foi indicado a melhor filme…
Melhor Direção de Arte:
Avatar ou Sherlock Holmes
Melhor Fotografia:
Avatar ou Bastardos Inglórios
Melhor Figurino:
Nine ou Coco Antes de Chanel
Melhor Diretor
James Cameron por Avatar ou sua ex-mulher Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror
Melhor Edição:
Avatar ou Guerra ao Terror
Melhor Trilha Sonora Original
James Horner por Avatar ou Michael Ziacchino por Up – Altas Aventuras
Melhor Canção Original
“Take it All”, de Nine ou Almost There, de A Princesa e o Sapo
Melhor Edição de Som
Avatar ou Bastardos Inglórios
Melhor Mixagem de Som
Avatar ou Bastardos Inglórios
Melhores Efeitos Especiais:
Avatar
Melhor Roteiro Adaptado:
Preciosa ou Amor Sem Escalas
Bastardos Inglórios ou Um Homem Sério
São as minhas apostas… lembrando que esses não são os filmes que eu acho melhores (até porque eu não vi alguns deles…), mas os que eu acho que vão vencer! Não opinei nas categorias de filme estrangeiro e documentários porque realmente não tenho informações disponíveis…
01.26.10
“Amor Sem Escalas” (Up In The Air, Jason Reitman, 2009)
Jason Reitman. Quem diria, heim? Aos 13 anos ele era ator, e fez uma ponta no bom “Um Tira no Jardim da Infância” (Kindergarden Cop), como “kissing boy”. Como roteirista e diretor chamou a atenção em 2005, com “Obrigado por Fumar” (Thank You for smoking), um filme muito bem levado. Foi, em 2007, o diretor do “hypado” “Juno”. E agora aparece com um dos filmes que devem levar algumas estatuetas em março. “Amor Sem Escalas” já foi o recordista de indicações do Globo de Ouro, apesar de ter levado só um prêmio (roteiro), e tanto o protagonista George Clooney quanto as coadjuvantes Vera Farmiga e Anna Kendrick andam aparecendo em todas as indicações para prêmios desse nosso verão.
“Amor Sem Escalas” é uma adaptação do livro de Walter Kirn e rende um bom filme. O roteiro foi bem construído por Reitman e Sheldon Turner, que fizeram a adaptação, e a direção de Reitman é segura. O canadense sabe para onde está indo, diferente do seu protagonista Ryan Bingham. O personagem de Clooney, aliás, é muito interessante. E isso se deve tanto à construção dele pelo ator, um dos melhores da sua geração, quanto à direção do canadense Reitman. Eu não gosto de publicar spoilers (comentários com conteúdo da história do filme, que possam atrapalhar quem gosta de assistir o filme sem muitas expectativas), mas a profissão do protagonista, que trabalha numa firma terceirizada especializada em demitir funcionários, deve ter tocado bastante os norte-americanos num momento de crise profunda e no qual as demissões se tornaram uma dolorosa presença mais constante.
A ótima Anne Kendrick (Crepúsculo (Twilight, 2008), Lua Nova(New Moon, 2009)) faz Nathalie Keener, uma jovam recém-formada e ambiciosa que precisa aprender os meandros da profissão com Bingham. A atriz foi muito bem escolhida para o papel e a química entre ela e Clooney funcionou muito bem. Vera Farmiga (O Menino do Pijama Listrado (The Boy in the Striped Pyjamas, 2008)) também está muito bem (sem falar em linda) no papel de Alex, executiva cujos caminhos se entrecruzam com os de Bingham entre uma e outra viagem aérea. Os diálogos entre os três são curtos e muitas vezes recheados de ironias. A paixão pela vida de Nathalie em contraponto com os mais maduros (e mais desiludidos) Bingham e Alex fazem uma das tramas interessantes do filme, até chegar ao ponto em que Nathalie começa a se questionar se o que ela quer para si é se tornar o que aqueles dois são. Ponto para o roteiro, ponto para os atores.
Num filme que é rodado grande parte do tempo em aeroportos e hoteis, a fotografia não chama a atenção, mas passa longe de ser ruim. Pelo contrário, é caprichada e a equipe do filme foi cuidadosa com todos os detalhes. Uma boa fotografia e uma boa iluminação são mais difíceis de serem percebidas sem locações espetaculares, mas tornam-se até mais importantes em função disso.
O filme é bom mesmo. Mas não se deixem enganar pelo título (ahá! Acharam mesmo que eu não ia falar disso?). “Amor Sem Escalas”, apesar de seus momentos de humor, não é uma comédia. Muito menos uma comédia romântica, como o título em português dá a entender. “Lá em Cima” seria um bom título, na minha opinião. Mas, enfim, muitas opções seriam melhores do que “Amor Sem Escalas”, que não diz nada do filme. Ainda sobre a atuação de Clooney: dos que vi, até aqui, um dos favoritos ao oscar, junto com o Pitt pelos Bastardos Inglórios. Só não me arrisco a dizer que é o favorito porque tem muito filme para sair aqui ainda e porque Daniel Day-Lewis vem aí com Nine, e esse sempre é favorito…
01.16.10
Barbadas
Lojas Americanas. Dessa vez não a loja online, mas a loja mesmo. Estão com muitos filmes bons (bons mesmo) a R$12,90. E ainda, comprando dois ganha-se um terceiro à escolha. Ghost, Tubarão, Curtindo a Vida Adoidado, A Cor Púrpura, Se7en, Flashdance, Footlose, Batman Begins e um monte de outros filmes. Dêem uma passadinha lá e divirtam-se!
Apenas Uma Vez (Once, John Carney, 2006)
Vir para a praia nos deixa com poucas opções de cinema propriamente dito. Em compensação, programando-se bem (e com aparelho de DVD e TV por Cabo) dá para ver uma quantidade de filmes bastante grande. Sem falar, é claro, em atualizações das séries que eu acompanho.
Bom, numa madrugada dessas, por sugestão da prima da minha namorada, assistimos “Apenas Uma Vez” (Once, John Carney, 2006) no DVD. A única referência que eu tinha do filme era a vitória da canção “Falling Slowly” como melhor canção original no Oscar 2008. A falta de referência, que para alguns é um problema, para mim é um atrativo: eu gosto de assistir um filme sem ter ideia do que se trata. “Apenas Uma Vez” é uma experiência de Carney (até onde eu descobri um diretor de seriados) muito bem sucedida em um longa. É um filme simples. O filme é um musical. Mas não é um musical como você está pensando. Foge totalmente da tradição hollywoodiana de musicais-espetáculos. É um musical minimalista, simples, triste e bonito. O filme é todo rodado em Dublin, na Irlanda, e a grande maioria dos atores são irlandeses, com seus cabelos ruivos e sotaques. Não temos, no filme, atores interpretando músicos, mas sim o contrário. Os atores principais são músicos que estão fazendo papeis. Glen Hansard, o protagonista, só tem uma experiência anterior no cinema. E, convenhamos, em “The Comitments – Loucos Pela Fama” (The Comitments, Alan Parker, 1991) ele fazia o papel de… músico irlandês. Markéta Irglová, a outra protagonista do filme, é uma música tcheca de 21 anos sem nenhuma experiência cinematográfica anterior. A direção de Carney é leve e deixa que os dois sejam eles mesmos. A fotografia é bem caprichada. A cena na qual Hansard e Irglová almoçam usa de um recurso muito simples: é filmada pela janela, do lado de fora do restaurante, o que faz com que os rostos dos autores alternem-se com cenas urbanas de Dublin.
“Apenas Uma Vez” é um daqueles filmes que passam despercebidos. Mas fiquei feliz de te-lo assistido. Fica a dica para as férias, para quem está procurando, como eu, alguma desintoxicação para “Avatar” e a sua grandiloquência, num filme simples e bonito. Não perca a trilha sonora, também. Toda composta por Hansard e Irglová, é basicamente composta de violão e piano, além das vozes. Recomendadíssima.
01.09.10
Avatar (James Cameron, 2009)
E então eu fui ver Avatar. Difícil fazer o que eu gosto, que é ir ao cinema com o mínimo de informação possível, uma vez que James Cameron é mestre em badalar suas produções. Não quero que isso soe como um defeito dele (é um mérito, na verdade). Titanic (Cameron, 1997) foi assim. Tenho que concordar com o Huyer (www.fakeline.wordpress.com): Titanic não é ruim, mas ser a maior bilheteria e o filme mais oscarizado da história do cinema? É meio inexplicável, eu também acho.
Mas voltando ao Avatar. Dizem que o Cameron pensa em realizar esse filme faz dez anos. Faz sentido. Dificilmente esse filme poderia ser imaginado antes de Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993, Steven Spielberg). Esse filme (Jurassic Park) teve o mérito de mostrar que os efeitos especiais davam um passo além graças à computação gráfica. Para o bem e para mal, diga-se de passagem. George Lucas viu Jurassic Park e decidiu que era a hora de filmar a primeira trilogia de Star Wars. Peter Jackson assistiu Jurassic Park e achou que finalmente dava para fazer O Senhor dos Aneis. Ao mesmo tempo que se tornou possível pensar nesse filme (Avatar) faz uns 10 anos, realizá-lo é outra coisa. Aí entra o mérito do Cameron. Esse filme podia ser um fiasco se feito uns cinco ou seis anos atrás. Seria mais um daqueles filmes que misturam animação com realidade de maneira fake. Alguém lembra do Expresso Polar? Ou de Final Fantasy? Mas Cameron esperou a hora certa. Tecnicamente o filme é lindo. Lindo demais. Pandora é absurdamente crível. A vegetação, os animais, os céus, os animais… tudo é crível e lindo. A bioluminescência, uma grande sacada do Cameron, parece que foi inspirada na fauna abissal. O Cameron gosta de mergulhar e já explorou isso em O Segredo do Abismo (Abyss, 1989, James Cameron). Os animais são extraordinários e seus movimentos, suas peles, seus olhares, sua respiração… tudo é crível. Tão crível que o filme nos envolve. Como li num outro blog por aí, percebi que o filme realmente envolvia quando comecei a achar aquela ET estranha atraente. E esse é o mérito do filme. É um espetáculo absurdo de efeitos especiais onde os efeitos especiais são… discretos. Eles não são o mais importante. Mas te envolvem e te fazem acreditar naquilo. Falando em envolvimento, nem pense em assistir Avatar num cinema que não seja imax 3D. Com certeza mais da metade do filme se perde sem essa tecnologia. Outro dos pontos altos do filme são os sons. Eles são límpidos, altos e estão lá, onde deveriam estar. E o mais interessante é que eles são sons imaginários. São ruídos de animais que não existem, de máquinas que não existem. E, novamente, são absolutamente críveis. Correndo o riso de ser repetitivo, o grande charme do filme é que ele é um filme de altíssima tecnologia onde a tecnologia não te salta aos olhos. Ela é magicamente colocada lá. Interessante foi ver também como o pessoal da técnica aqui do Brasil teve de se virar para colocar as legendas. Pelo que me consta foi o primeiro filme 3D com legendas nos cinemas brasileiros… Avatar se estende por três horas, que passam realmente rápido. O filme não se arrasta, o que é um mérito de Cameron. A história é contada com início, meio e fim. Os atores estão bem nos papeis, principalmente os protagonistas. Mas é importante ressaltar que Avatar é um filme que vale (e muito) pelo visual. O roteiro não é denso e os diálogos andam a um passo do clichê. O roteiro é o politicamente correto ambientalista (não por acaso o metal precioso de Pandora se chama unobtaniun). O próprio nome do planeta, Pandora, é uma alusão à caixa que continha todas os males na mitologia grega. O roteiro é uma mistura de Pocahontas (1995, Eric Goldberg e Mike Gabriel) com Dança com Lobos (Dancing With Wolves, Kevin Costner, 1990). Os Na’vi, povo nativo apresentado de maneira escancaradamente parecida com os nativos americanos, tem uma ligação telúrica muito forte. Há uma conexão com a natureza e com os elementos da natureza que muitas vezes é física mesmo. O próprio nome da espécie “na’vi” não deixa de ser uma corruptela de “naive”, ou “ingênuos” em inglês. Os Na’vi respeitam o planeta, vivem em harmonia com ele, utilizam seus recursos com parcimônia. Já os humanos, sempre em tons de preto e cinza, são inescrupulosos e já destruíram um planeta. Os humanos estão em ambientes escuros, cheios de metal e plástico, enquanto os Na’vi vivem em profunda comunhão com a natureza. Para ser ainda mais explícito, a atmosfera de Pandora é tóxica aos humanos, como se os humanos não conseguissem conviver com toda aquela pureza. Avatar pode ser lido como uma fábula sobre o descobrimento da América. Um Novo Mundo cheio de recursos naturais e riquezas habitado por um povo que vive junto à natureza começando a ser explorado pela “alta civilização” que está pronta para destruir tudo aquilo que teme e não entende em nome de lucro. Cameron consegue, com suas plantas e vegetais fictícios, recriar a sensação de encantamento dos primeiros europeus a desembarcarem na América. E melhor do que isso, consegue fazer com que nós compartilhemos a situação. E tudo isso num filme lançado na mesma semana da COP15.
As atuações são seguras. Sam Worthington, o protagonista, é um “durão que sabe atuar”. Ele fica bem no papel. Zöe Saldana como Neytiri consegue dar realismo ao papel. E, como eu já disse, consegue fazer aquela coisa azul sem nariz ficar atraente. Sigourney Weaver é Segourney Weaver e toda a sua naturalidade em um cenário de Sci-Fi. Dentro da estação dava para vê-la na Nostromo, caçando Aliens. Cameron os dirige com naturalidade, sabendo o que quer de cada personagem desde o início, o que torna o trabalho dos atores bastante simples e competente.
Avatar, enfim, vai marcar a história do cinema. Logo que saí da sessão eu estava tão impactado que pensava que Avatar poderia significar a mesma coisa que “The Jazz Singer” (Alan Crosland, 1927) (Para quem não sabe, o primeiro filme falado na história do cinema). Hoje eu talvez não ache que o impacto é tãããão grande. Talvez Avatar seja o novo “Matrix” (irmãos Wachowski, 1999). Ou talvez Avatar seja Avatar. É um filme que vale a pena ser visto, é um espetáculo sensorial e, repito e reforço, vale a pena ser visto no cinema. E em 3D.
12.15.09
Julie & Julia (Nora Ephron, 2009)
Eu quase desisti de escrever essa crítica depois de ler a crítica do Huyer ( http://fakeline.wordpress.com/ ) , que disse quase tudo que eu pensei sobre o filme. Mas ainda assim resolvi fazer algumas observações.
O filme tem alguns problemas de encaixe e roteiro, como bem coloca o meu amigo e ex-aluno. Além de contar duas histórias assimétricas: Julia Child é muito, mas muito mais interessante do que Julie Powell. Além do que Meryl Streep é Meryl Streep. Procure alguns vídeos de Julia Child no youtube e você vai ver como Streep não interpretou Julia Child, ela incorporou a personagem, isso sim. Julie Powell tem uma história… comum. Um marido completamente bidimensional e uma relação meio inexplicável com as amigas. É o desempenho de Amy Adams que salva essa “metade” do filme, junto com as belíssimas receitas. A fotografia e as luzes das receitas feitas por Julie Powell seguram bravamente essa parte do filme. Como disse o Huyer (denovo), não é um filme para se assistir com fome.
O filme tem, na primeira metade, passagens truncadas de uma parte para a outra. E isso me surpreende pelo fato de tanto o roteiro quanto a direção serem de Nora Ephron. Ephron foi produtora e roteirista daquela que é, para mim, uma das melhores comédias românticas de todos os tempos, “Harry e Sally: Feitos Um Para o Outro” (When Harry Mets Sally, 1989). Talvez seja a falta de tato de Ephron como diretora mesmo… seu trabalho mais conhecido dirigindo foi a adaptação para o cinema da série “A Feiticeira” (Bewitched, 2005), que, convenhamos, não foi uma obra-prima cinematográfica.
“Julie & Julia” vale pelas lindíssimas locações em Paris, vale pela fotografia caprichada, vale pela atuação de Meryl Streep. Não foi o melhor filme do ano, mas também não foi o pior.
12.08.09
Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos)
Alguns cineastas são autorais. Significa que seus filmes tem um conjunto de características que os deixa únicos. Perpassa a temática. Tem relação com fotografia, enquadramento, música, luz e abordagem. Assim, rápido, hoje em dia consigo pensar em quatro cineastas autorais. Quentin Tarantino, Woody Allen e Tim Burton seriam os três primeiros. Os trabalhos de cada um deles tem (ou ainda é têm porque é plural? Maldita reforma!!) uma certa “impressão digital”. Impossível ver um Tim Burton e não pensar no diretor. Difícil não pinçar nos filmes do Tarantino um monte de elementos familiares. E, apesar da guinada surpreendente desde Match Point, Allen ainda é Allen. Graças aos Deuses, aliás, já que o novaiorquino narigudo é um dos meus diretores preferidos.
Bom, mas eu queria mesmo chegar era no quarto da lista, o espanhol Pedro Almodóvar. “Abraços Partidos” (Los Abrazos Rotos, 2009), seu trabalho mais recente, é todo Almodóvar. Almodóvar não é (e nunca foi) um diretor que põe o roteiro em primeiro plano. A trama é sempre uma desculpa para desfilar sentimentos em forma de cores, texturas e imagens. E nisso ele é inigualável. Não existem filmes parecidos com os dele. “Deus está nos detalhes”, diz o ditado. Almodóvar também. O tom vermelho das unhas do pé da moça, na primeira cena do filme, contrastando com o sofá aveludado. O vermelho do sapato de Lena (Penélope Cruz). O vermelho do tomate sendo descascado. O vermelho das maças no quadro da sala de jantar de Ernesto (José Luiz Gomez). Eu teria que assistir o filme denovo, algumas vezes, para pegar mais referências das cores. Mas elas estão lá. E como sempre, em Almodóvar, quentes, cruas e primárias, como os sentimentos.
O filme também tem as mulheres de Almodóvar, outra de suas marcas registradas. Tanto a passional Lena, feita por uma Penélope Cruz que não consegue deixar de ficar mais linda a cada papel, quanto a constrita Judit, encarnada por Blanca Portillo, que já havia sido conduzida pelo diretor em “Volver” (2006) são mulheres “almodovarianas”. Mulheres cujas vidas foram guiadas por tramas e doenças que fizeram com que elas tivessem que tomar decisões drásticas fazendo sacrifícios pessoais em prol do bem de um ente querido. Lena e Judit são mais parecidas do que se consegue enxergar num primeiro movimento.
Há também a referência ao próprio cinema, presente em “Tudo Sobre Minha Mãe” (Todo Sobre Mi Madre, 2006) e em “Volver”. “Chicas e Maletas”, último filme dirigido por Mateo Blanco/Harry Caine, é o filme dentro do filme, o metafilme, recurso que Almodóvar já havia utilizado em “Volver” com “O Amante Minguante”. “Chicas e Maletas”, tendo sido rodado teoricamente na primeira metade da década de 1990, remete-nos, tanto no visual quanto nos diálogos, aos primeiro filmes de Almodóvar, como “Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos” (Mujeres ao bordo de un ataque de niervos, 1988), “Ata-me!” (Átame, 1990) ou “Kika” (1993).
Dentre as atuações destaque para Lluís Homar, que faz o protagonista Mateo Blanco/Harry Caine nos envolver devagar no seu pesadíssimo drama pessoal. Há quem diga que Almodóvar só sabe dirigir mulheres e por isso suas personagens femininas são tão fortes, mas isso é uma injustiça que personagens como Mateo/Harry (e Benigno, em “Fale com Ela”, e Esteban, em “Tudo Sobre Minha Mãe”) ajudam a desmentir.
No fim das contas “Abraços Partidos” é um filme sobre sentimentos, sobre sacrifícios, sobre recomeços e sobre resgates. E nesse sentido Almodóvar consegue, novamente, fazer um grande filme. Não é sua obra-prima, mas um cineasta não tem a obrigação de fazer o melhor filme da sua vida a cada vez que filma. Vale pelos diálogos. Vale pelas atuações. Vale pela beleza plástica do filme. Vale pela (ótima) trilha sonora. Enfim, vale. E vale bastante.
11.29.09
(500) Dias Com Ela
Gostaria, em primeiro lugar, de pedir desculpas para a meia-dúzia de leitores desse blog. As últimas semanas foram de muito trabalho. Daqui para frente esperem algumas atualizações mais constantes. A vida está bem mais simples.
Sexta-feira, no dia da estreia, fui assistir (500) Dias Com Ela ((500) Days Of Summer, Marc Webb, 2009). É um daqueles casos em que se perde bastante com a tradução do título, mas não há o que se fazer: certas coisas são intraduzíveis mesmo…
Bom, mas ao filme. (500) Dias Com Ela é um achado. Scott Neustadter e Michael H. Weber construíram um roteiro primoroso. O filme não é tediosamente linear e vai, na medida em que avança, nos deixando cada vez mais envolvido com os personagens e angustiados querendo saber o desfecho. A direção do novato Marc Webb (apenas quatro longas no currículo antes desse) foi primorosa. Destaque para a cena de abertura, que nos apresenta Tom e Summer, os protagonistas, desde a sua infância até a sua adolescência; e para a cena da festa, dividida entre dois quadros, um deles apresentando a “festa real” e o outro apresentando a “expectativa de Tom”, a festa como ele gostaria que ela fosse. Atire a primeira pedra quem nunca construiu uma festa na sua cabeça antes que ela acontecesse… A narrativa acelera e retarda-se de uma maneira agradável e a fotografia de Eric Steelberg (o mesmo de Juno) definitivamente colabora. Algumas cenas são agradavelmente coloridas num tom. Há cenas cinzas, cenas âmbar e há uma inesquecível cena azul, completamente azul (com direito a passarinho azul e tudo).
Os protagonistas seguram otimamente bem. Zooey Deschanel tem uma beleza invulgar. Não é loira, tem um rosto assimétrico e talvez esteja um pouco acima do peso para os padrões tradicionais de Hollywood. Mas é linda. Lindíssima, aliás. E tanto Marc Webb quanto Eric Steelberg exploram magistralmente bem os magníficos olhos azuis da menina. Sua Summer poderia ser a “vilã” do filme mas a franqueza da personagem e a leveza da interpretação de Zooey fazem com que nós, assim como o protagonista, acabemos simpatizando com ela. É muito, mas muito difícil não gostar da Summer.
Joseph Gordon-Levitt. Guarde bem esse nome. Se as patizinhas em geral vão ficar o verão inteiro suspirando por Robert “Edward” Pattinson, as meninas mais descoladas e alternativas (e também as mais grandinhas, as vinte-e-poucos) vão sonhas é com Joseph Gordon-Levitt. Tom Hansen, o seu personagem, é o namorado que, em teoria, elas gostariam de ter. Ele é romântico, desajeitado, apaixonado, tem um cabelo cuidadosamente desgrenhado, ouve Smiths e sonha. Todo o filme é contado do ponto de vista dele e é quase inevitável torcer para que ele consiga o que quer.
Destaque para as poucas (mas ótimas) participações de Chloe Moretz, atriz de 12 anos que faz a irmã caçula de Tom e que é sua conselheira sentimental. Viram que fofo? Ele pede conselhos para a sábia irmã mais nova…
A trilha sonora casa excelentemente bem com o filme. Algumas pérolas dos anos 80 e 90, um tema de seriado obscuro e algumas surpresas. Será uma das trilhas sonoras da minha semana, com certeza…
Uma dificuldade que eu tive foi a de enquadrar o filme dentro de um gênero (o que, diga-se de passagem, eu não considero que seja um problema). (500) Dias Com Ela não é uma comédia romântica, apesar de ter alguns elementos delas (das boas, enfim). Não é um drama. Não é uma comédia. E isso, para mim, só fala bem do filme. Há quem queira classificá-lo como “filme indie” ou “filme alternativo”, jogando num mesmo balaio que “Juno” (Jason Reitman, 2007), “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, Jonathan Dayton e Valerie Faris, 2006) e alguns mais antigos como “Alta Fidelidade” (High Fidelity, Stephen Frears, 2000) ou “Quase Famosos” (Almost Famous, Cameron Crowe, 2000). Apesar de achar esse rótulo bem “elástico”, todos são bons filmes…
E só para deixar claro: vale muito apena. Diversão certa num filme bonito e, de certa forma, triste.
11.11.09
Quase comprei “Beleza Americana” (American Beauty, 1999, Sam Mendes) no Bourbon hoje. R$12,90. Aliás, do mesmo diretor, um filme menos badalado mas tão bom quanto é o “Foi Apenas Um Sonho” (Revolutionary Road, 2008). Leonardo di Caprio e Kate Winslet repetem o casal de Titanic (1997) mais maduros e excelentes. Os dois mereciam oscars (oscares?) ou outros prêmios pelas atuações nesse filme…