12.08.09
Abraços Partidos (Los Abrazos Rotos)
Alguns cineastas são autorais. Significa que seus filmes tem um conjunto de características que os deixa únicos. Perpassa a temática. Tem relação com fotografia, enquadramento, música, luz e abordagem. Assim, rápido, hoje em dia consigo pensar em quatro cineastas autorais. Quentin Tarantino, Woody Allen e Tim Burton seriam os três primeiros. Os trabalhos de cada um deles tem (ou ainda é têm porque é plural? Maldita reforma!!) uma certa “impressão digital”. Impossível ver um Tim Burton e não pensar no diretor. Difícil não pinçar nos filmes do Tarantino um monte de elementos familiares. E, apesar da guinada surpreendente desde Match Point, Allen ainda é Allen. Graças aos Deuses, aliás, já que o novaiorquino narigudo é um dos meus diretores preferidos.
Bom, mas eu queria mesmo chegar era no quarto da lista, o espanhol Pedro Almodóvar. “Abraços Partidos” (Los Abrazos Rotos, 2009), seu trabalho mais recente, é todo Almodóvar. Almodóvar não é (e nunca foi) um diretor que põe o roteiro em primeiro plano. A trama é sempre uma desculpa para desfilar sentimentos em forma de cores, texturas e imagens. E nisso ele é inigualável. Não existem filmes parecidos com os dele. “Deus está nos detalhes”, diz o ditado. Almodóvar também. O tom vermelho das unhas do pé da moça, na primeira cena do filme, contrastando com o sofá aveludado. O vermelho do sapato de Lena (Penélope Cruz). O vermelho do tomate sendo descascado. O vermelho das maças no quadro da sala de jantar de Ernesto (José Luiz Gomez). Eu teria que assistir o filme denovo, algumas vezes, para pegar mais referências das cores. Mas elas estão lá. E como sempre, em Almodóvar, quentes, cruas e primárias, como os sentimentos.
O filme também tem as mulheres de Almodóvar, outra de suas marcas registradas. Tanto a passional Lena, feita por uma Penélope Cruz que não consegue deixar de ficar mais linda a cada papel, quanto a constrita Judit, encarnada por Blanca Portillo, que já havia sido conduzida pelo diretor em “Volver” (2006) são mulheres “almodovarianas”. Mulheres cujas vidas foram guiadas por tramas e doenças que fizeram com que elas tivessem que tomar decisões drásticas fazendo sacrifícios pessoais em prol do bem de um ente querido. Lena e Judit são mais parecidas do que se consegue enxergar num primeiro movimento.
Há também a referência ao próprio cinema, presente em “Tudo Sobre Minha Mãe” (Todo Sobre Mi Madre, 2006) e em “Volver”. “Chicas e Maletas”, último filme dirigido por Mateo Blanco/Harry Caine, é o filme dentro do filme, o metafilme, recurso que Almodóvar já havia utilizado em “Volver” com “O Amante Minguante”. “Chicas e Maletas”, tendo sido rodado teoricamente na primeira metade da década de 1990, remete-nos, tanto no visual quanto nos diálogos, aos primeiro filmes de Almodóvar, como “Mulheres a Beira de um Ataque de Nervos” (Mujeres ao bordo de un ataque de niervos, 1988), “Ata-me!” (Átame, 1990) ou “Kika” (1993).
Dentre as atuações destaque para Lluís Homar, que faz o protagonista Mateo Blanco/Harry Caine nos envolver devagar no seu pesadíssimo drama pessoal. Há quem diga que Almodóvar só sabe dirigir mulheres e por isso suas personagens femininas são tão fortes, mas isso é uma injustiça que personagens como Mateo/Harry (e Benigno, em “Fale com Ela”, e Esteban, em “Tudo Sobre Minha Mãe”) ajudam a desmentir.
No fim das contas “Abraços Partidos” é um filme sobre sentimentos, sobre sacrifícios, sobre recomeços e sobre resgates. E nesse sentido Almodóvar consegue, novamente, fazer um grande filme. Não é sua obra-prima, mas um cineasta não tem a obrigação de fazer o melhor filme da sua vida a cada vez que filma. Vale pelos diálogos. Vale pelas atuações. Vale pela beleza plástica do filme. Vale pela (ótima) trilha sonora. Enfim, vale. E vale bastante.
11.29.09
(500) Dias Com Ela
Gostaria, em primeiro lugar, de pedir desculpas para a meia-dúzia de leitores desse blog. As últimas semanas foram de muito trabalho. Daqui para frente esperem algumas atualizações mais constantes. A vida está bem mais simples.
Sexta-feira, no dia da estreia, fui assistir (500) Dias Com Ela ((500) Days Of Summer, Marc Webb, 2009). É um daqueles casos em que se perde bastante com a tradução do título, mas não há o que se fazer: certas coisas são intraduzíveis mesmo…
Bom, mas ao filme. (500) Dias Com Ela é um achado. Scott Neustadter e Michael H. Weber construíram um roteiro primoroso. O filme não é tediosamente linear e vai, na medida em que avança, nos deixando cada vez mais envolvido com os personagens e angustiados querendo saber o desfecho. A direção do novato Marc Webb (apenas quatro longas no currículo antes desse) foi primorosa. Destaque para a cena de abertura, que nos apresenta Tom e Summer, os protagonistas, desde a sua infância até a sua adolescência; e para a cena da festa, dividida entre dois quadros, um deles apresentando a “festa real” e o outro apresentando a “expectativa de Tom”, a festa como ele gostaria que ela fosse. Atire a primeira pedra quem nunca construiu uma festa na sua cabeça antes que ela acontecesse… A narrativa acelera e retarda-se de uma maneira agradável e a fotografia de Eric Steelberg (o mesmo de Juno) definitivamente colabora. Algumas cenas são agradavelmente coloridas num tom. Há cenas cinzas, cenas âmbar e há uma inesquecível cena azul, completamente azul (com direito a passarinho azul e tudo).
Os protagonistas seguram otimamente bem. Zooey Deschanel tem uma beleza invulgar. Não é loira, tem um rosto assimétrico e talvez esteja um pouco acima do peso para os padrões tradicionais de Hollywood. Mas é linda. Lindíssima, aliás. E tanto Marc Webb quanto Eric Steelberg exploram magistralmente bem os magníficos olhos azuis da menina. Sua Summer poderia ser a “vilã” do filme mas a franqueza da personagem e a leveza da interpretação de Zooey fazem com que nós, assim como o protagonista, acabemos simpatizando com ela. É muito, mas muito difícil não gostar da Summer.
Joseph Gordon-Levitt. Guarde bem esse nome. Se as patizinhas em geral vão ficar o verão inteiro suspirando por Robert “Edward” Pattinson, as meninas mais descoladas e alternativas (e também as mais grandinhas, as vinte-e-poucos) vão sonhas é com Joseph Gordon-Levitt. Tom Hansen, o seu personagem, é o namorado que, em teoria, elas gostariam de ter. Ele é romântico, desajeitado, apaixonado, tem um cabelo cuidadosamente desgrenhado, ouve Smiths e sonha. Todo o filme é contado do ponto de vista dele e é quase inevitável torcer para que ele consiga o que quer.
Destaque para as poucas (mas ótimas) participações de Chloe Moretz, atriz de 12 anos que faz a irmã caçula de Tom e que é sua conselheira sentimental. Viram que fofo? Ele pede conselhos para a sábia irmã mais nova…
A trilha sonora casa excelentemente bem com o filme. Algumas pérolas dos anos 80 e 90, um tema de seriado obscuro e algumas surpresas. Será uma das trilhas sonoras da minha semana, com certeza…
Uma dificuldade que eu tive foi a de enquadrar o filme dentro de um gênero (o que, diga-se de passagem, eu não considero que seja um problema). (500) Dias Com Ela não é uma comédia romântica, apesar de ter alguns elementos delas (das boas, enfim). Não é um drama. Não é uma comédia. E isso, para mim, só fala bem do filme. Há quem queira classificá-lo como “filme indie” ou “filme alternativo”, jogando num mesmo balaio que “Juno” (Jason Reitman, 2007), “Pequena Miss Sunshine” (Little Miss Sunshine, Jonathan Dayton e Valerie Faris, 2006) e alguns mais antigos como “Alta Fidelidade” (High Fidelity, Stephen Frears, 2000) ou “Quase Famosos” (Almost Famous, Cameron Crowe, 2000). Apesar de achar esse rótulo bem “elástico”, todos são bons filmes…
E só para deixar claro: vale muito apena. Diversão certa num filme bonito e, de certa forma, triste.
11.11.09
Quase comprei “Beleza Americana” (American Beauty, 1999, Sam Mendes) no Bourbon hoje. R$12,90. Aliás, do mesmo diretor, um filme menos badalado mas tão bom quanto é o “Foi Apenas Um Sonho” (Revolutionary Road, 2008). Leonardo di Caprio e Kate Winslet repetem o casal de Titanic (1997) mais maduros e excelentes. Os dois mereciam oscars (oscares?) ou outros prêmios pelas atuações nesse filme…
11.08.09
Criaturas da Noite
No próximo dia 20 de novembro milhões de meninas vão aos cinemas suspirar e desejar sinceramente uma mordidinha no pescoço. Se ela vier de Edward, o Vampiro Camarada, melhor ainda. Enquanto esperam, é provável que baixem os episódios de True Blood ou de The Vampire Diaries. Vampiros estão na moda, definitivamente. Ou, como diria uma amiga minha, “são tendência”.
Interessante é ver como o tratamento dos vampiros muda através dos tempos. O cinema já dedicou uma boa quantidade de celulose às Crianças da Noite. Muitos atores já se celebrizaram (e alguns se maldisseram) por protagonizarem bebedores de sangue. “Imagens, Sons e Telas” (oquei, esse nome é péssimo mesmo) pretende indicar oito bons filmes de vampiros já feitos nesse século e pouco de cinema.
O primeiro a ser indicado não poderia ser outro. Nosferatu (Nosferatu, Eine Synphonie des Grauens, 1922), de F.W. Murnau, é uma das primeiras adaptações da clássica obra “Drácula”, de Bram Stoker. Por problemas de direitos autorais o filme não pode fazer referência ao próprio Drácula, optando Murnau por chamar o filme de “Nosferatu” e o seu vampiro da Transilvânia de Conde Orlok. O filme, mudo, é considerado um dos marcos do expressionismo alemão, escola cinematográfica que cresceu na República de Weimar e mostra uma Alemanha amargurada ainda pela I Guerra Mundial e já assustada pela tenebrosa ascensão do nazismo. Orlok é magistralmente interpretado por Max Schreck, que criou um vampiro que certamente despertaria pavor nas adolescentes que suspiram por Edward. Orlok é nojento e abjeto, convive com ratos e sujeira. Ele representa o que há de ruim na humanidade.

Uma das mais clássicas cenas de filmes de horror

Será que a Bella daria o pescocinho dela para ele?
Um filme que não trata exatamente de vampiros, mas tem vampiros no nome é “M, o Vampiro de Dusseldorf” (M, 1931, Fritz Lang). O mestre Lang conta a história da caça a um assassino de crianças no seu primeiro filme falado. O tema do assassino talvez seja um dos primeiros leitmotivs da história do cinema e o filme retrata a descrença geral nas pessoas e nas instituições da Alemanha durante a brutal crise econômica e o crescimento do nazismo…
Voltando aos vampiros propriamente ditos, Drácula (Dracula, 1931, Tod Browning) não poderia ficar fora da lista em função da caracterização magistral de Bela Lugosi. Sabe aquele vampiro com o cabelo todo penteado para trás, com a pele pálida e a capa preta forrada em vermelho? Se você tem esse vampiro como paradigma, agradeça a Bela Lugosi. O Conde Drácula dele, já apresentado aqui como um sedutor, foi tão definitivo que se transformou, durante décadas, no modelo do “verdadeiro” vampiro. A clássica cena do automóvel estragando no meio da madrugada bem na frente daquele castelo taciturno, clichê dos clichês dos filmes de terror, fez sua estreia aqui. E há, é claro, a clássica menção aos lobos, “Children of the night”. Se fosse existir apenas um clássico sobre vampiros, seria esse.

Bela Lugosi, o mais clássico dos vampiros

E dessa vez, a Bella ia? Será que a Bella ia no Bela? (desculpem, impossível resistir ao trocadilho...)
O personagem gótico de Bram Stoker também deu origem a “Drácula: O Príncipe das Trevas” (Dracula: Prince of Darkness, 1966, Terence Fisher). O nobre romeno foi vivido (tecnicamente um vampiro pode ser vivido? Enfim, não sei…) pelo sempre ótimo Christopher Lee. A história de Drácula é sempre parecida, mas a interpretação de Lee faz valer assistir, novamente, a mesma história.

Christopher Lee: Saruman nunca me enganou...
O filme de vampiros que marcou a minha pré-adolescência (e do qual eu até participei de uma adaptação teatral) foi “A Hora do Espanto” (Fright Night, 1985, Tom Holland). Charlie, um adolescente viciado em filmes de terror antigos, fica desconfiado de um novo vizinho e seu empregado, que ele só vê a noite. Sua mãe, seu melhor amigo e sua namorada não acreditam em suas desconfianças e o próprio espectador é levado a duvidar de Charlie durante boa parte do filme. O filme é leve e tem toques de humor sarcástico, um típico filme dos anos 80.

Sorria, seu vizinho adolescente está olhando!!
É possível contar a história de Drácula de uma maneira diferente? Essa foi a pergunta que levou Francis Ford Coppola a fazer “Drácula de Bram Stoker” (Dracula, 1992). Coppola decidiu ir na contramão de todas as adaptações anteriores e, ao invés de usar a versão adaptada para o teatro, adaptar diretamente do livro de Stoker. Os fãs da história fazia anos pediam uma adaptação mais fiel ao livro, e foi isso que Coppola tentou fazer. O elenco é ótimo, com Winona Ryder como Mina Murray, Anthony Hopkins como van Helsing e Keanu Reeves como Jonathan Harker. Mas novamente o vampiro rouba a cena: o Conde Drácula de Gary Oldman talvez seja a maior interpretação da sua carreira.

Assista o filme e acredite: a Bella se entregava para esse...
Se os fãs de Bram Stoker queriam uma adaptação mais fiel, os fãs de Anne Rice pediam há muito também uma adaptação cinematográfica da obra vampírica da autora. “Entrevista com o Vampiro” (Interview with the Vampire, 1994, Neil Jordan) teve o roteiro adaptado pela própria Anne Rice para o cinema. Se Gary Oldman e Christofer Lee já haviam feito vampiros sedutores, o Louis de Point du Lac encarnado por Brad Pitt adiciona um outro elemento: o vampiro não é senhor da situação, é amargurado, tem remorsos e dúvidas. Humanizado, o vampiro torna-se heroi e ganha a simpatia do público. O vampiro mais tradicional é encarnado por Tom Cruise com o seu Lestat de Lioncourt. Destaque também para a jovem vampira-menina Claudia, atormentada por ter sido vampirizada ainda criança e que torna-se uma centenária num corpo infantil. Claudia foi interpretada por Kirsten Dunst, que tinha menos de doze anos durante as filmagens.
Vou encerrar minha lista com um filme que foge um pouco do padrão grave dos filmes vampíricos. “Drácula – Morto mas Feliz” (Dracula: Dead and Loving It, 1995, Mel Brooks) entra naquela categoria de spoof movies, filmes que satirizam um gênero. O sempre hilariante Mel Brooks além de dirigir ainda faz o papel de van Helsing, enquanto o Drácula da vez é o imbatível Leslie Nielsen, soberano absoluto desse gênero.
Eu poderia falar ainda de Blade ou de Anjos da Noite, a questão é que eu não gosto tanto assim desses filmes. Enfim, curtam a lista!
PS: primeiro post em que eu me aventuro a colocar imagens…
11.05.09
Um filme de ação nacional
Ou pelo menos, uma tentativa. Pelo menos é isso que o trailler de “Besouro” (2009) promete. Eu vi o trailler duas vezes e fiquei realmente curioso para ver o filme. O trailler tem uma sequência de cenas ao estilo dos filmes de ação de Hong Kong como “O Tigre e o Dragão” (Wo hu cang long, Ang Lee, 2000), “Heroi” (Ying xiong, Yimou Zhang, 2002) ou “O Clã das Adagas Voadoras (Shi mian mai fu, Yimou Zhang, 2004). Não é o meu tipo de filme preferido, mas enfim, costumam ser filmes divertidos e plasticamente muito bonitos, com excelentes fotografias e cenas de ação.
Bom, “Besouro” ficou na promessa. Joao Daniel Tikhomiroff, o diretor, era um ilustre desconhecido para mim. Fazendo o tema de casa descobri que ele dirigiu um outro filme, “A Máquina das Maravilhas”, de 1972, e que ele é o diretor de peças publicitários mais premiado da história do Brasil. A direção do filme, no entanto, é confusa. A história do “maior capoeirista de todos os tempos” vai da infância até a vida adulta, de maneira linear mas com grandes lapsos. Aílton Carmo, o ator que faz Besouro, não consegue seduzir, conquistar o público. Ficamos a maior parte do filme nos perguntando qual é a dele e quando virá a “grande virada” do personagem, que não vem. A personagem de Jéssica Barbosa (Que está bem, por sinal), Dinorá, tem uma mudança meio inexplicável do meio para o final do filme. A traição de Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus), por outro lado, é bastante previsível.
Se é para achar um destaque positivo ele pode ser a produção. A caracterização de época (o filme se passa na década de 1920 na região do recôncavo baiano) e dos orixás foi caprichada. Mas ficou nisso. Enfim, eu podia ser bem cruel e dizer que o que de melhor tem “Besouro” é o trailler. Mas, enfim, é.
)
11.04.09
Woody Allen a granel!!
O Telecine Cult começou hoje um festival sobre um dos meus cineastas favoritos, o narigudo Woody Allen. Hoje, as 22h, começou a exibição com “Melinda e Melinda” (2004). As “sessões” serão nas quartas-feiras, até o dia 9 de dezembro. Confira a programação:
Dia 11 de Novembro: Igual a Tudo na Vida (Anything Else, 2003)
Dia 18 de Novembro: A Outra (Another Woman, 1988)
Dia 25 de Novembro: Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters, 1986)
Dia 2 de Dezembro: A Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985)
Dia 9 de Dezembro: Manhattan (1979)
Manhattan foi um dos primeiros filmes resenhados aqui por mim, você encontra ele nos posts antigos. Para quem quer conhecer melhor o Allen, o festival é um prato cheio!
11.02.09
Um filme “liberal”?
Robert Redford se tornou aquilo que Hollywood costuma chamar um “realizador”. Além de excelente ator, desde a década de 1960, tornou-se diretor e produtor. Sua maior obra, talvez, seja manter o Sundance Festival, o maior festival de cinema alternativo dos EUA e que já lançou filmes como “Sexo, Mentiras e Videotape” (Sex, Lies and Videotape, 1989, Steven Soderbergh), Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992, Quentin Tarantino), El Mariachi (1992, Robert Rodriguez), A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, 1999, Daniel Myrick e Eduardo Sanchez), Obrigado Por Fumar (Thank You For Smoking, 2006, Jason Reitman). Jogos Mortais (Saw, 2004, James Wan) e Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006, Jonathan Dayton e Valerie Feris), entre outros. Alguns diretores como Robert Rodriguez, Quentin Tarantino, Kevin Smith e Steven Soderbergh apareceram para o mundo no Sundance Festival. Só o Sundance Festival já seria uma justificativa para reverenciar o Robert Redford, que estimula a criatividade e a inovação numa indústria cada vez mais burra e repetitiva, mas além disso ele ainda é um excelente ator. Hoje em dia um daqueles que escolhe papeis. Redford já foi indicado ao Oscar como ator (por Golpe de Mestre (The Sting), 1973) e já o ganhou como diretor (por Gente Como a Gente (Ordinary People), 1980).
“Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, 2007) foi produzido, dirigido e estrelado por Redford, e foi o meu filme de sábado. Foi um que me escapuliu quando estava nos cinemas, então restou o Telecine Premium. O filme trata, em primeiro plano, da intervenção militar norte-americana no Afeganistão em três frentes diferentes: na primeira delas Jasper Irving (um Tom Cruise bem digno), um senador com pretensões eleitorais maiores entre os democratas, chama a experiente repórter Janine Roth (Meryl Streep, como sempre impecável), que apostou nele anos atrás para supostamente explicar para ela, em primeira mão, uma nova estratégia militar no Afeganistão. Na segunda frente o professor universitário Stephen Malley (Redford) tenta motivar um aluno (Todd Hayes, bem interpretado por Andrew Garfield) brilhante, porém desiludido com o “sistema” a voltar a frequentar as aulas de ciência política. Malley usa como exemplo dois estudantes que, indo contra as orientações do próprio professor, alistaram-se no exército para servir no Afeganistão. Uma missão desses estudantes executando a estratégia propagandeada por Irving é a terceira frente do filme e a que faz as costuras entre as outras duas.
O filme saiu em 2007 e criou, nos EUA, um debate muito grande por ser um filme supostamente “liberal” (com toda a conotação que esse termo tem por lá). Redford sempre teria sido um “liberal” e o personagem “conservador” do filme, o histriônico Irving de Cruise, seria uma “caricatura de conservador como os liberais os vêem”. Independente do debate sobre a guerra o filme, na minha opinião, é sobre dúvida e crença. Destacam-se aí dois personagens. A repórter de Meryl Streep e o estudante de Andrew Garfield. Os dois são céticos e resistem às tentativas de Irving e Malley, respectivamente, de engajá-los nas suas respectivas causas. O filme, nesse sentido, não é conclusivo. Tanto não é que, ao final do filme, não temos certeza se o estudante voltará a frequentar as aulas ou se a repórter escreverá um texto engajádo como quer o senador ou um denunciando-o. Nesse sentido Redford parece empurrar a escolha para o espectador, como que perguntando “e você, o que faria?”. A única dúvida que não fica, para Redford, é quanto a guerra. Os dois personagens que vão à guerra e o seu final trágico (e principalmente a maneira como ele ocorre) nos dão a certeza disso.
Um filme de diálogos longos e planos fechados. Um filme pesado e de reflexão. Mas um bom filme. Eu gostei, pelo menos. Nenhum dos atores deixa a peteca cair e a mão de Redford na direção é precisa, cortando cada uma das tramas no momento correto e não fazendo com que o filme pareça uma colcha de retalhos. A desejar, mais uma vez, a tradução do título. “Lions for Lambs” dá uma ideia de leões para cordeiros, ou ainda leões a serviço de cordeiros, que é como a citação aparece numa das falas do professor Malley. “Leões e Cordeiros”, na tradução, perde a relação de subordinação, onde os leões são os soldados e os cordeiros os comandantes. Enfim, talvez eu me preocupe demais com essa questão dos títulos…
10.30.09
Hollywood e o Medo de Arriscar
Esse final de década de 2000 está sendo meio desanimador no mainstream de Hollywood. A impressão que eles nos passam é que os grandes estúdios estão cada vez mais visando não o cinema, mas sim o lucro puro e simples. Não é que eu ache que o cinema não deva dar lucro… muito antes pelo contrário! Acho que deve (e pode) dar muita grana. O que me deixa meio desolado é a falta de risco. Os grandes estúdios de Hollywood tem, cada vez mais, apostado em continuações e adaptações. E quando eu digo adaptações não estou falando de adaptações de livros, mas adaptações de games ou seriados! Já em 2007, as 10 maiores bilheterias do cinema foram, em ordem: Piratas do Caribe 3 – No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean: At The World´s End, 2007); Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, 2007); Homem-Aranha 3 (Spiderman 3, 2007); Shrek Terceiro (Shrek the Third, 2007); Transformers (2007); Ratatouille (2007); Os Simpsons – O Filme (The Simpsons – The Movie, 2007); O Ultimato Bourne (The Ultimate Bourne, 2007) e Duro de Matar 4.0 (Die Hard 4.0, 2007).
Reparem: entre as 10 maiores bilheterias de 2007 apenas UM filme não é sequência ou adaptação: Ratatouille, uma animação. Em 2008 não foi muito diferente. Novamente, em ordem: Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008); Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdon of the Crystall Skull, 2008); Kung Fu Panda (2008); Hancock (2008); O Homem de Ferro (Iron Man, 2008); Mama Mia! (Mama Mia!, 2008); Quantum of Solace (2008); Wall-E (2008); Madagascar 2 (Madagascar: Escape 2 Africa) e As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian (The Chronicles of Narnia: Prince Caspian, 2008). Nessa lista temos três “novidades”: Kung Fu Panda, Wall-E e Hancock. Todos os outros são continuações ou adaptações. Ainda, fora das listas e de cabeça poderíamos citar Rocky Balboa (2006), Rambo (2008), GI Joe (GI Joe: The Rise of Cobra, 2009), Sex and the City – O Filme (2008) e tantos outros mais.
Não que eu seja contra as séries cinematográficas. Absolutamente! Eu gosto muito de várias delas… mas quando a indústria cinematográfica passa a mexer seus poderosos músculos de dólares SÓ em uma direção, o cinema fica mais pobre. Nada supera a sensação de êxtase que só é possível se ter quando nos levantamos da poltrona depois de ter visto um filme do qual não tínhamos a mínima noção do que trataria.
O que acontece, eu acho, faz parte do processo de idiotização do público em geral. Os estúdios partem do princípio de que o público é estúpido e quer ver sempre as mesmas coisas, e isso acaba fazendo com que o público… fique estúpido e acostume-se a ver sempre as mesmas coisas. Eu tinha a impressão de que essa tendência de manter praticamente os mesmos cartazes no cinema de ano para ano era coisa recente, e agora fiz uma pesquisa aleatória: Em 1996, no Top 10, eram seis filmes “inéditos”. Em 1991 foram cinco. Em 1998, oito. Então não estou tão errado assim.
E você? O que acha? Acha que eu estou viajando e quer mais é esperar o próximo Harry Potter, o próximo Homem Aranha e o próximo American Pie? Ou concorda comigo que um pouco mais de risco não faria mal aos grandes estúdios?
10.28.09
Ainda barbadas
Achei hoje no balaio do Bourbon: “Show de Truman” a R$ 19,90 e “Bonequinha de Luxo” (Breakfest at Tiffany´s, 1961) pelos mesmos R$ 19,90. Por mais que a Audrey Hepburn tenha ficado me olhando acabei não comprando o filme… Bem, não comprei porque já comprei filmes demais essa semana!!