14 14UTC março 14UTC 2010

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, Woody Allen, 2009)

Enviado em Uncategorized tagged , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , às 19:15 por Pedro Cunha

AVISO: Eu sou fã de Woody Allen. Fã mesmo. Então o texto abaixo está impregnado de pessoalidade e subjetividade (Como se todos os outros não estivessem, hehehehe).

“Tudo Pode Dar Certo” é o QUADRAGÉSIMO QUARTO filme dirigido por Woody Allen. Na esmagadora maioria deles, senão em todos, ele assina também o roteiro. “O Que Há, Tigresa?” (What´s Up, Tiger Lily?, 1966), o primeiro filme dirigido por Allen, é de 1966. Isso significa 44 anos fazendo cinema. É um bocado de tempo. Dificilmente há um realizador (Allen também produz e escolhe a trilha sonora da maioria dos seus filmes) tão profícuo na história de Hollywood. Se ele nem sempre é genial, como conseguiu ser em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (Annie Hall, 1977), filme pelo qual venceu o Oscar de filme e direção em 1978 (prêmios, aliás, que nunca foi buscar, segundo a lenda), Zelig (1983) ou em Match Point (2005), sua obra tem uma média segura. Difícil apontar um filme “ruim” de Woody Allen. Alguns citam “O Escorpião de Jade” (The Curse of the Jade Scorpion, 2001), um filme que eu acho “legalzinho”. Mas ainda que ele fosse péssimo, lembrem que estamos falando de uma filmografia de QUARENTA E QUATRO filmes (e mais dois vindo: um em pós-produção e outro em pré-produção…).

A carreira de Allen andava meio estagnada no início dos anos 2000. Uma série de filmes meio parecidos, com algumas ideias boas no meio de um monte de… Woody Allen, por assim dizer. A crítica especializada achava que a fonte havia se esgotado, sem estarem completamente desprovidos de razão. A guinada europeia de Allen se deu em 2005, quando lançou o maravilhoso “Match Point”. Um filme que trouxe coisas novas, advindas talvez do fato do diretor ter finalmente largado Nova Iorque e experimentado novos ares, rodando o filme em Londres. Além de um filme considerado pelo próprio Allen como talvez a melhor coisa que ele tenha feito (opinião dele em “Conversas Com Woody Allen”, excelente livro de Eric Lax) “Match Point” rendeu a Allen também uma nova musa: Scarlett Johansson, que depois desse estreou ainda “Scoop” (2006) e “Vicky Cristina Barcelona” (2008). A sequência de três filmes em Londres, Match Point (2005), Scoop (2006) e O Sonho de Cassandra (Cassandra´s Dream, 2007) mostrou denovo um Allen com aquilo que tinha de melhor em ironia, humor descompromissado (em Scoop, principalmente) e análises psicológicas da alma humana e suas motivações. Seguiu-se a eles o ensolarado “Vicky Cristina Barcelona”, onde o diretor trocou de ares mais uma vez (dessa vez financiado pelo governo da Catalunha) e fez um bom filme, baseado em sólidas atuações de Javier Barden, Penélope Cruz (ganhou Oscar pelo filme), Rebecca Hall (o papel caiu como uma luva para ela) e, denovo, Scarlett Johansson. O filme em Barcelona gerou um boato, que de vez em quando volta, da possibilidade de Allen fazer um filme no Rio de Janeiro.

Tudo isso para chegar a Whatever Works. Me desculpem o pedantismo, mas vou usar o título em inglês, uma vez que o título em português não só não tem relação com o nome do filme em inglês como também estraga a mensagem principal do filme. Whatever Works mostra a volta de Allen a Nova Iorque. Uma volta renovada, com direito a ônibus turístico e Estátua da Liberdade. Uma volta com direito às velhas piadas sobre judeus que só um judeu pode fazer. E uma série de piadas sobre religiosidade e espiritualidade em geral que faz com que em muitos fóruns na internet o filme seja tratado pela milícia talibã ultraconservadora dos EUA como um filme “anticristão”. É difícil dizer exatamente sobre o que fala o filme sem entregar muitas das reviravoltas que ele tem. Ele faz uma reflexão sobre o sentido da vida, eu poderia dizer. É um filme também sobre escolhas e suas consequências. Mas não é um filme sério, muito antes pelo contrário. E muito dele não ser sério se deve à atuação de Larry David, até então um ilustre desconhecido para mim. Larry David é, pelo que eu entendi, figurinha carimbada em programas de TV dos EUA. Tem seu próprio show (Larry David: Curb Your Enthusiasm) e várias participações em outros como Seinfield e uma boa temporada em Saturday Night Live. David faz um velho judeu misantropo que mora em Nova Iorque. Ele é um físico que já foi considerado genial mas que se perdeu depois de “quase” ter gnaho um Nobel.  Boris, o personagem de David, atualmente ganha a vida dando lições de xadrez para crianças. Lições essas que em geral terminam com as crianças chorando como reação à rabugice do professor ou com o próprio Bóris atirando peças e tabuleiros sobre crianças que ele considerava “zumbis”, “minhocas”, “lagartas” ou “vermes”. Sim, você entendeu. Larry David interpreta (com maestria, diga-se de passagem) Woody Allen, ou o papel que Woody Allen sempre fez, já que o próprio sempre insiste que aquele não é ele, é um personagem que ele sabe fazer. Evan Rachel Wood foi um achado para interpretar Melody, a ingênua garota de 16 anos do sul dos EUA que foge de casa e busca em Nova Iorque a chance de uma vida diferente. A menina, criada em um tradicional lar cristão (e racista) do sul dos EUA cai de pára-quedas na vida do misantropo ateu novaiorquino e o “relacionamento” (se é que se pode chamar assim) entre eles já valeria o filme. Na medida em que as coisas se acomodam, Allen faz algo que lhe é típico: quando achamos que o filme achou um rumo, que o conflito principal está resolvido, ele introduz um novo elemento que dá para o filme uma dinâmica completamente diferente. No caso de Whatever Works esse elemento é Marietta, a mãe de Melody, muito bem interpretada por Patricia Clarkson, uma veterana com “Dogville” (Lars von Trier, 2003) e a refilmagem de “Carrie” (David Carson, 2002) no currículo, além de participações em diversos seriados. Um dos talentos de Allen é justamente esse: encontrar atores, em geral de segunda linha, que se encaixem perfeitamente nos papeis que ele quer.

Tecnicamente, é um filme de Allen. Longos diálogos recheados de ironias, muitos clichês (e ele próprio faz piada com isso) e discussões existencialistas. Longos planos-sequências (que o diretor justifica por pura preguiça, por achar “muito chato” trabalhar na pós-produção), uma das marcas registradas de Allen, dão ênfase ao texto e Nova Iorque como cenário ativo da obra, com seus restaurantezinhos, suas esquinas e seus belos enquadramentos fazem com que a cidade seja mais um personagem. Além da cidade, Allen também traz de volta Santo Loquasto, seu diretor de arte em mais de 15 filmes. Loquasto é discreto mas sabe dosar a luz e construir aquilo que Allen quer.

O filme surpreende, inclusive, com uma mensagem positiva no final: viva sua vida, procure fazer as coisas certas e, no final, qualquer coisa funciona. É aí que a tradução do título deturpa a mensagem, que não torna o filme, de forma nenhuma, um filme de auto-ajuda. Aliás, dependendo do caso, é bem pelo contrário.

Resumindo, a temporada europeia de Allen fez muito bem para ele. Whatever Works é um dos bons filmes de Allen. Dentre os filmes dele em Nova Iorque, me arrisco a dizer que é disparado o melhor dos últimos 10 ou 15 anos. Para quem geralmente gosta de Woddy Allen é recomendado que não deixe de ver. E mesmo quem não gosta tanto assim vai gostar do filme, pela amostragem das pessoas que foram comigo ao cinema.

2 Comentários »

  1. Nuni disse,

    Amei *-*
    Ah, e amei Vicky Cristina Barcelona também.
    Beijuz

  2. Lucy disse,

    mil anos depois, finalmente li o teu comentário sobre “Whatever Works” e aconteceu exatamente aquilo que eu tinha certeza que iria acontecer: tô querendo me matar por não ter ido vê-lo no cinema T.T
    enfim, se tu deixar, Pedro, vou te usar como fonte de pesquisa pro meu trabalho da facul xDDD
    beeeijo! saudades – e esperando por mais posts aqui.


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